Misericórdia e Hospital

Para melhor compreensão da história da Misericórdia e hospital, seguiremos tanto quanto possível a ordem cronológica, pois nem sempre as duas instituições estiveram sob a administração de uma Mesa comum.

A fundação do hospital da Nossa Senhora dos Pobres, ou Hospital da Misericórdia data de 1471, no reinado de D. Afonso V. Foi instituído para receber os soldados doentes ou feridos durante as expedições ao norte de Africa, nomeadamente os de Tanger e, não era apenas um hospital de retaguarda instalado por ordem de El-Rei numa albergaria existente na vila, era também onde segundo o costume da época, se podiam acolher, tanto pessoas sãs, de passagem, como velhos ou inválidos sem casa onde morar.

Nas “Actas de Vereação de Loulé- Século XVI (1522- 1527)” publicadas em 2014 pela Câmara Municipal, vem referido “…veio o provedor da Santa Misericórdia a camara e disse que estes eram os irmãos seguintes que…” (p.86, sessão de 4 de Junho de 1524). Sendo assim, a Irmandade da Santa Casa da Misericórdia já existia em 1524.

Em 1568 D. Sebastião autoriza a Casa da Misericórdia a receber o legado instituído por D. Diogo Alvares Telles, falecido em Goa, cuja herança devia ser investida em bens de raiz.

Dois anos mais tarde foi o Hospital da Nossa senhora dos Pobres anexado à Santa Casa, conforme orientação seguida desde 1564, e segundo os moldes da administração do Hospital Real de Todos os Santos, criado por D. João II, que por essa época passou a ser dirigido pelo provedor da Misericórdia de Lisboa.

Por ordem do príncipe regente D. Pedro II, em 1683, as administrações da Santa Casa e do Hospital, são separadas. Por motivos mal determinados, mas presumivelmente devido a má gerência da mesa, a direcção do hospital foi entregue ao padre João Aguiar Ribeiro, de família nobre, atendendo certamente à sua capacidade de administração (ao que parece, foi de facto exemplar) e à dádiva por ele feita à casa que ía dirigir. Foi esse legado de duzentos e três mil e quinhentos reis, que permitiu ao sacerdote nomear (1694), como seus sucessores na direcção do hospital, os frades agostinhos descalços, representados na pessoa do seu superior.

Em 1784 os frades agostinhos melhoraram o hospital, construindo novas instalações para o tratamento de doentes. A partir de 1820, por ordem do presidente da Junta de Melhoramentos das Obras religiosas, cargo exercido pelo Bispo de Elvas, D. José Maria da Cunha de Azevedo Coutinho, voltou a Misericórdia a ser administradora do hospital.

Quando em 1834 foram extintas as ordens religiosas e expulsos os frades agostinhos a quem pertenciam a Igreja e o Hospício, transferiu-se para aí a Misericórdia, onde se manteve até aos nossos dias, e que até aíi funcionava no local onde mais tarde se construíram alguns edifícios e depois a Caixa Geral de Depósitos.

Por volta de 1923, encontramos como director do Hospital o médico José Bernardo Lopes, que apesar de dispor de um hospital instalado num edifício degradado, consegue pelas suas acções desenvolvidas em prol da saúde e bem-estar das populações, principalmente dos mais desfavorecidos, fazer vibrar de admiração os louletanos. Sobe o prestígio do director do hospital e cresce o amor dos louletanos pela Santa Casa.

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Retrato do Dr. José Bernardo Lopes

São necessárias grandes transformações no velho edifício, e os louletanos reúnem esforços para melhorar e renovar o hospital. Os beneméritos são numerosos. Aparecem legados, doações.

Reorganizam-se as batalhas de flores pela mão de Manuel Guerreiro Pereira, que seria também Provedor da Misericórdia. Estes festejos carnavalescos, iniciados em 1906, para puro divertimento, são agora organizados para angariar fundos para a Misericórdia e são um êxito. Loulé passa a ser conhecida pelo seu Hospital de vanguarda, no Algarve, pelos serviços que presta e pela Batalha de Flores, no Carnaval!

Carnaval

Grupo Organizador do Carnaval

Em 1948 dá-se inicio á grande transformação com comparticipação do Estado, subsídios da Câmara e ajudas de particulares. Com um grande plano de obras, por fases até 1960, a mesa administrativa leva a cabo uma profunda transformação na estrutura do Hospital.

Com boas instalações, um bom corpo clínico – cirúrgico e demais pessoal paramédico, continuou o Hospital da Misericórdia a desempenhar a sua função, prestando os necessários serviços de saúde, não só às populações de Loulé, mas também de outros concelhos, tendo a Mesa Administrativa sempre a grande preocupação de ajudar os mais necessitados, uma vez que os serviços ali prestados eram pagos em função da capacidade económico-financeira de cada utilizador, nada pagando quem nada tinha.

Entretanto, para se entregar ao bom funcionamento, ao melhor apetrechamento do seu hospital, acaba por ser esta a única valência da Santa Casa. Tudo ele consome. Bens e energias. Amor e dedicação.

Em 1976 tudo parecia ter terminado com a publicação de um Decreto-Lei que extingue as Misericórdias e nacionaliza os seus hospitais. Em 26 de Março desse ano foi dissolvida a Mesa Administrativa da Santa Casa, passando o funcionamento do hospital a ser assegurado por uma Comissão Administrativa que tomou posse em 6 de Maio de 1976. Não viria, porém, a consumar-se a decretada extinção pelo que voltam às Misericórdias os bens que lhe haviam sido espoliados, sendo mesmo criada, em 1981, uma Comissão de Indemnização das suas instalações hospitalares e firmando o Estado contrato de arrendamento do prédio, onde esse hospital estava instalado. Mais se obrigava o Governo a fazer todas as obras de conservação e beneficiação e o compromisso do edifício ser restituído à Misericórdia em perfeito estado de utilização. Todavia, tal não aconteceu, pois o hospital foi entregue à Misericórdia no início de 2005, inoperacional, completamente em ruínas e no maior estado de abandono.

Com a dissolução da Mesa Administrativa em 1976, não havia ninguém que legitimamente pudesse receber o legado deixado à Misericórdia pelo benemérito José da Costa Guerreiro. Para o efeito, foi nomeada uma Comissão Administrativa, que tomou posse perante o Presidente da Câmara Municipal de Loulé, em 17 de Janeiro de 1978, mantendo-se assim na administração dos bens da Misericórdia até 27 de Março de 1979, data em que tomaram posse os novos Corpos Gerentes, eleitos para o efeito.

Inicia-se assim para a Santa Casa da Misericórdia de Loulé uma nova fase em que a acção da Irmandade, encabeçada pela Provedora, D. Catarina Farrajota, se vai dedicar à Terceira Idade. Em finais de 1981 é criada a valência de Centro de Dia e Apoio Domiciliário, em edifício alugado pela Junta de Freguesia de S. Clemente, com Acordo de Cooperação com a Segurança Social para 60 utentes.

Em Janeiro de 1982 começa a funcionar no edifico da Av. José da Costa Mealha, nº16, legado pelo Sr. José da Costa Guerreiro, a valência de Lar de Idosos com o internamento de 29 utentes.

A Misericórdia foi trabalhando as valências criadas e pouco tempo depois, começa a verificar que as necessidades da população são de tal maneira grandes que não era possível dar resposta às mesmas, sem mudar de instalações, aumentando a sua capacidade. É assim que, aproveitando o espaço de um lagar de azeite que possuía na Rua de São Paulo legado por um benemérito, permutou com a Câmara Municipal, um lote de terreno na Expansão Nordeste, de maior dimensão e situado em lugar mais central da cidade, e iniciou em 1988 a construção de um edifício de oito pisos, onde funcionam actualmente os serviços da Misericórdia, que foi inaugurado em Agosto de 1995.

Após 8 mandatos, termina em 2001 a administração da Misericórdia, pela provedora, D. Catarina Farrajota. Toma posse nova Mesa Administrativa, liderada pelo Provedor Manuel Filipe Roque Semião, que continua a acção da Misericórdia.

Durante algum tempo foi preocupação saber qual o destino a dar ao Hospital, que tinha sido entregue num estado de completa degradação. Embora vários destinos lhe pudessem ser dados, a verdade é que, sempre que o assunto era abordado, nomeadamente com o Presidente da Câmara Dr. Seruca Emídio, a conclusão a que se chegava era sempre que o Hospital devia ser recuperado, tanto mais que aquela unidade de saúde continuava no coração dos louletanos, além de ser um edifício emblemático na cidade de Loulé, ter grande simbolismo para os louletanos em geral, era fundamental colocá-lo à disposição dos munícipes com qualidade e capacidade de resposta adequada às necessidades da população até porque a Administração Regional de Saúde manifestava interesse por ter uma unidade de cuidados continuados de saúde no concelho.

Para ir de encontro a esta pretensão, logo que o edifício foi entregue à Misericórdia, por parte da ARS, começa a Mesa Administrativa a diligenciar no sentido de reunir fundos para proceder ás obras de recuperação e ampliação do edifício e encontrar um parceiro que fizesse a administração do Hospital.

Como primeira ajuda, aprovou o executivo da Câmara Municipal de Loulé um subsidio de 800.000 Euros e um outro de 350.000 Euros, e mais tarde apareceram duas empresas, da área da saúde – a Clínica de S. Clemente e a Someal, Lda. – que com a Misericórdia viriam a constituir a sociedade – Hospital de Loulé, SA. que administra o hospital.

As obras de recuperação e ampliação do hospital foram consignadas em 1 de Fevereiro de 2008 e terminaram em Março de 2011, com um custo total de 4.500.000 Euros. O hospital abriu portas em Abril de 2011 com a unidade de serviços paliativos e uma unidade de cuidados continuados com 21 camas, que constitui mais uma valência da Misericórdia, e foi inaugurado por Sua Exa. O Presidente da República, Professor Dr. Aníbal Cavaco Silva em 8 de Julho de 2011

Presidente

O Presidente da República Dr. Aníbal Cavaco Silva, com o Presidente da C.M. de Loulé, Dr. Seruca Emídio, e o Provedor da SCM Loulé, Sr. Manuel Semião na inauguração do Hospital de Loulé.

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